Padre HORÁCIO

Notas para uma biografia
Por Fernando Azeiteiro
"Quem
tem medo do nada, precisa de tudo"
- Savater
"O
Pai ama-me, porque dou a minha vida. Ninguém ma tira. Sou eu que
a dou..."
-
Jo. 10, 17-18
Ficámos
contentes quando nos pediram para dar a conhecer um pouco quem
foi o senhor Padre Horácio. E ficámos contentes, não pelo trabalho
em si, mas porque era uma pequena homenagem que se faria ao P.e
Horácio, que este ano, no dia 13 de Agosto, faria cinquenta anos
da sua ordenação sacerdotal.
Já
tínhamos falado algumas vezes de como iríamos celebrar este acontecimento.
Nunca a Lentisqueira tivera um gesto significativo para com este
seu ilustre filho e, como tal, a celebração das Bodas de Ouro
sacerdotais, seria o momento oportuno.
Não
será assim. No dia 6 de Maio p.p., tendo-se deslocado a Setúbal
para participar na Festa dos Gaiatos, depois de jantar tranquilamente,
adormeceu no Senhor.
Nasceu
a 28 de Janeiro de1924, numa família profundamente cristã,
de pequenos comerciantes. Era o 3º de quatro irmãos. Frequentou
os Seminários diocesanos da Figueira da Foz e de Coimbra. Ordenado
sacerdote a 13 de Agosto de 1950, D. Ernesto Sena de Oliveira,
bispo da diocese, destinou-o, a pedido do P.e Américo e por sua
vontade expressa, para a Obra da Rua. Aqui gastou toda a sua vida
ao serviço de quem nada tinha, a não ser o dom maravilhoso da
vida.
Até
há cerca de meia dúzia de anos atrás, altura em que pediu para
ser substituído da orientação da casa, sempre dirigiu a Casa do
Gaiato de Miranda do Corvo (a primeira a ser fundada por Padre
Américo) e o Lar dos Estudantes Gaiatos em Coimbra.
Era
acarinhado por todos na cidade de Coimbra. Conhecia todos os becos
e ruas escuras. Aprendeu com P.e Américo, com quem calcorreou
as vielas e ruas estreitas da cidade, à procura de quem precisava
de ajuda. Os pobres e os abandonados eram os seus amigos predilectos.
Como
ainda hoje acontece, as casas do Gaiato não recebem qualquer subsídio
estatal, a não ser pontualmente. Como tal, o Padre Horácio era
conhecido em todas as igrejas da cidade, pelos peditórios que
fazia e, ainda, pela coluna que manteve no jornal "O Gaiato",
intitulada TRIBUNA de COIMBRA, que se tornou célebre pelos casos/
problemas que apresentava e pelos apelos que fazia.
Foi
nestes escritos quinzenais que manifestava o que era para si o
Evangelho e como entendia a evangelização. A sua palavra simples,
sem grandes adjectivos, mas penetrante e incisiva, revelava o
modo simples e evangélico de viver o seu sacerdócio. Aliás, estamos
em crer que, a editorial da Casa do Gaiato, não deixará de publicar
em livro, a título póstumo, este conjunto de escritos.
Mas,
se a sua família predilecta eram os seus gaiatos, nunca esqueceu
o seu torrão natal: a sua Lentisqueira. Aqui retemperava forcas
e estava presente sempre que se justificava.
Não
se pode fazer a história da Lentisqueira dos últimos cinquenta
anos sem que o P.e Horácio esteja permanentemente presente.
Digamos
que, a partir dos anos quarenta, foi ele que dinamizou a vida
social da aldeia. Foi ele que começou a fazer teatro, quando ainda
era estudante, e que depois esteve em todos os melhoramentos e
obras que foram feitos na povoação.
Aquando
da sua ordenação, construiu a capelinha das Alminhas que se encontra
à entrada da povoação, num terreno que era seu.
Nos
anos sessenta foi o grande impulsionador para a construção da
actual Capela. Como não foi possível aumentar o terreno da capela
antiga, onde hoje se encontra o Centro Social, que era mais central,
foi o P.e Horácio, com a sua irmã Maria Morais, que ofereceu
o terreno onde hoje está a nossa Igreja. O seu entusiasmo
e dedicação, de casa em casa, a pedir de porta em porta, para
que o sonho se tornasse realidade e o seu sobrinho-afilhado,
D. Manuel Pelino, pudesse aí celebrar a Missa Nova. Mobilizou
vontades na terra e fora dela. Todo o tecto da Capela, por exemplo,
foi oferta do Sr. Fausto Branco, seu amigo de Miranda do Corvo.
E quantas vezes se deslocou a Lisboa, para falar com o arquitecto!
Ainda
aqui há um pormenor que gostaríamos de realçar: os aspectos inovadores
da arquitectura da nossa capela. É certo que estávamos a viver
os tempos novos do concilio Vaticano II. Mas, também aqui, o P.e
Horácio revelou o seu espírito aberto a coisas novas e belas.
Nos
finais dos anos setenta construiu-se o Centro Social e Paroquial.
Foi o P.e Horácio o seu grande impulsionador. É certo que houve
uma comissão encarregada, mas, por detrás e a reclamar a sua necessidade,
esteve sempre o senhor P.e Horácio. Também aqui não deixou de
dar até o seu contributo material! Ofereceu, juntamente
com a sua irmã, a vinha que tinham nas Quintas, que foi vendida
para angariar fundos para ajudar a concluir o Centro.
Foi
ele que construiu as Alminhas que se encontram no largo em frente
de sua casa.
E,
ultimamente, temos de dizê-lo, foi ele o grande culpado de termos,
finalmente, um largo na nossa aldeia. Há muito que o P.e Horácio
sonhava com ele! Muitas vezes nos falou da sua necessidade. Até
que em 1989 conseguimos
convencer o Sr. Presidente da Câmara. Avançou-se, então, para
a compra da casa do ti Manuel Azeiteiro. O P.e Horácio esteve
presente, na reunião que a Câmara da altura realizou, em casa
da ti Celeste, para chegar a acordo quanto ao preço do terreno.
O processo durou mais do que o desejável. Estamos em crer, no
entanto, que a inauguração do Largo, em que esteve presente, foi
um dia de alegria na sua vida.
Há
ainda um pequeno pormenor que, entretanto, gostaríamos de realçar.
Quando foi alcatroada a rua em frente a sua casa (a casa de seus
pais), para que não ficasse a apertar a estrada, pôs abaixo toda
a frontaria e reconstruiu-a conforme o original, recuando cerca
de dois metros. Ninguém lhe pediu. No entanto, sempre entendeu
que um bem público deve estar acima de um bem privado.
Para
além dos factos referidos, é conhecido de toda a gente que os
doentes contavam sempre com a sua visita e os pobres com a sua
ajuda. Não gostava de correr muito aos Hospitais. Preferia ir
a casa com discrição...
Nos
últimos anos ajudou a construir/reconstruir algumas casas na Lentisqueira,
nos Leitões, nas Cochadas, no Casal de S. Tomé, na Praia de Mira.
Quando
lhe dizíamos: " Ò Padrinho- era assim que era tratado
por todos os sobrinhos - mas esse(s) não precisam, são novos,
se quisessem trabalhar...", ao que nos respondia: "vocês
fazem muitas contas e a caridade não esta sujeita a contas".
Ultimamente,
desde que uma trombose o debilitou fisicamente, estava encarregado
do "Património dos Pobres", apesar de ter deixado de
conduzir. Tinha agora no jornal "O Gaiato" uma coluna
que se intitulava precisamente 'Património dos Pobres'. Aliás,
sempre que vinha à Lentisqueira,- ultimamente, de vez em quando,
à 2ª feira, para almoçar com os sobrinhos,- tinha sempre alguém
doente para ir visitar ou situações a necessitar de soluções urgentes
para ir resolver. Ainda na última vez que esteve connosco, no
dia da Visita Pascal, teve que se ausentar mais cedo porque ia
visitar uma velhinha que vivia sozinha e necessitava de ajuda.
Como
disse o nosso bispo, D. João Alves, na Missa de corpo presente,
celebrada na Casa do Gaiato de Miranda do Corvo, "com verdade
se poderá dizer do Padre Horácio que, como bom apóstolo
de Cristo, passou a vida fazendo o bem".
E o
nosso bispo coadjutor, D. Albino Cleto, nas Exéquias celebradas
na nossa Capela, afirmou que "o Padre Horácio entrará
para a galeria dos notáveis da Igreja Diocesana".
E nós,
o povo da Lentisqueira, o que dizemos deste Homem?
Obviamente
que ele não precisa que lhe demos nada. Nunca precisou. Viveu
pobre e pobre morreu. Deixou o seu testamento, que foi lido nas
suas Exéquias: "Ser enterrado paramentado de alba e estola,
num caixão dos mais pobres, se possível no Cemitério da Lentisqueira
- onde se encontra - em campa rasa, com uma simples pedra,
onde serão gravadas as palavras PAZ e BEM".
Já
não temos o Padre Horácio. Mas temos algo que não se apagará facilmente
da nossa memória: o seu EXEMPLO.
Precisamos
que ele continue connosco.
Não
celebraremos as suas Bodas de Ouro sacerdotais, mas podemos aproveitar
a data para lhe construirmos a estátua que merece, no adro da
nossa Capela.
Cremos,
no entanto, que a melhor homenagem que lhe podemos prestar, aquela
que lhe agradará mais, é unirmos as mãos, em prol da Lentisqueira.
OBRIGADO
padrinho.
Coimbra, 6 de Junho de 2000
