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D. PALMIRA GOUVEIA MESQUITA BARRETO

 Notas biográficas

Nasceu a 20 de Dezembro, de 1919, em S. Paulo, no Brasil.Aos 12 anos veio para Portugal, tendo os seus pais fixado residência em Portomar. Era a mais velha das três irmãs que constituíam a família.Estudou no Liceu José Estevão, em Aveiro. Concluído o 7º Ano (actual 12º), ingressou na Universidade, em Farmácia. Entretanto, como havia muita falta de professores, o Governo decidiu abrir um curso para formar professores em pouco tempo. Ficaram conhecidos , na época, como "Professores paraquedistas". A D. Palmira deixou a Universidade e fez este curso na Escola do Magistério Primário de Aveiro. (Em Mira havia mais duas professoras nesta situação: a D. Adélia, no Seixo e a D. Elisa, na Barra).

Começou a leccionar em 1937, na Praia de Mira. No primeiro ano que deu escola tinha 110 alunos (!) nas quatro classes, que na altura eram classes mistas. Ou seja, 47 alunos na 1ª classe, 30 na 2ª classe, 30 na 3ª classe e 3 na 4 ª classe. Ganhava, na altura, cerca de 600$00 por mês!Como não havia edifício escolar, as aulas eram dadas em casa do Professor Pinho. Começava às 9,00 e terminava às 18,30 horas.

Da Praia de Mira passou para a Tocha, onde esteve um ano a ensinar as Meninas. Daqui passou para Enxofães, onde esteve igualmente um ano. Regressou, de novo, à Praia, onde esteve mais quatro anos

.Entretanto, casou, em 1944, com Manuel Gomes Barreto, fixando residência na Lentisqueira, terra do marido. Durante a semana vivia na localidade onde leccionava, regressando à Lentisqueira apenas nos fins de semana.

Entretanto, durante a estadia na Praia, nasceu a sua primeira filha. Enquanto esteve de licença de parto, na Lentisqueira, os alunos da 4ª classe e os que estavam a preparar-se para a admissão foram viver para sua casa, para não perderem a escola. Assim é que, alguns da Praia, ainda hoje dizem que andaram na " Universidade da Lentisqueira".

Da Praia passou para o S. Caetano, onde esteve durante três anos (foi professora do Padre Manuel de Jesus, entre muitos outros...). Aqui nasceu a sua segunda filha. Aí residia durante a semana, vindo apenas aos fins de semana para a Lentisqueira.

Foi a partir desta altura que a ti Maria ( a criada, como no tempo se dizia) começou a fazer parte da família, onde permaneceu fielmente até à morte.

Começou a leccionar na Lentisqueira em 1949. Os seus primeiros alunos foram o Adélio Manco (aliás, curiosamente, o Adélio foi dos primeiros alunos e o filho do Adélio, o Luís, foi o último aluno.), o Neco Manco, o Maximino... Tinha, então, cerca de 50 alunos nas quatro classes, sendo a Escola em casa do ti Miguel. Recorde-se que todos os alunos do Colmeal e das Cavadas vinham à escola à Lentisqueira.

Como havia apenas uma sala no edifício escolar oficial, arranjou uma sala em sua casa, onde deu aulas praticamente até entrar na reforma.A sua casa era a casa de todos os seus alunos. O pátio da sua casa era o nosso recreio...

Além dos alunos regulares, normalmente entre 40 e 50, quase todos os anos tinha alunos de preparação para a Admissão, exame que todos os que queriam prosseguir estudos após a 4ª classe, tinham de fazer para entrar no ensino oficial.

Depois da revolução de 25 de Abril de 74, começou a haver turmas mistas (rapazes / raparigas), começando a haver desdobramento (uns tinham aulas de manhã, outros tinham aulas à tarde), dando os professores aulas ou de manhã ou de tarde. Começou então, a dar escola às meninas. As suas primeiras alunas foram a Paula Manco, a Dores Nuno Rico, a Cristina Cruz e o Rui Alegrio, que acabaram a 4ª classe em 1980.

Foi professora de um filho, de um genro e de um neto...Aposentou-se em 1980 com uma reforma de cerca de 80 contos.

Com um curiculum destes, bem merece a reforma regalada que os filhos e genros lhe têm proporcionado e o carinho e gratidão de todos os seus ex-alunos...

A minha professora

Tal como uma velha árvore conserva todos os testemunhos do seu crescimento e da sua vida, assim também acontece com cada um de nós. Somos aquilo que fazemos e fizemos. Somos justos quando praticamos a justiça e somos honestos quando as nossas acções o são. Também aqui 'pelo fruto se conhece a árvore'.

Pediram-me que deixasse o meu testemunho público de quem foi / é a minha - nossa -professora primária. É sempre com emoção e gratidão que falamos da nossa professora, pois a professora primária (hoje, do 1º ciclo) é como que uma segunda Mãe. Se a nossa mãe nos ensinou as primeiras palavras, a nossa professora ensinou-nos as primeiras letras, ou seja, ajudou-nos a interpretar e a perceber essas primeiras palavras. E, além disso, ensinou-nos outra coisa muito importante: é que não falamos apenas com as palavras. Falamos também pelas nossas atitudes e comportamentos. É que, quando íamos para a Escola - e falo da minha experiência pessoal - não íamos só para aprender a ler e a escrever. A professora não se preocupava apenas em ensinar-nos os programas, o que vinha nos livros, as contas de somar e dividir, a História e a Geografia, mas - e felizmente sobretudo - a sermos meninos bem educados e respeitadores que aprendiam Matemática e outras coisas bonitas. Não bastava saber a tabuada de cor e salteada e não dar nenhum erro no ditado, era igualmente necessário saber comportar-se com os colegas (ai daquele que se atrevesse a dizer uma asneira e que chegasse aos ouvidos da Senhora...) e com as restantes pessoas (ninguém se atrevia a tratar uma pessoa mais velha por tu... e os pais, então, nem pensar!...)

Hoje diríamos que a professora não se preocupava em instruir, mas antes em EDUCAR. As atitudes e os valores estavam sempre presentes. Assim, podemos dizer que foi uma grande sorte a professora que tivemos. Não só pelo muito que nos ensinou, mas sobretudo pela formação pessoal e humana que nos proporcionou.

Eu andei na Escola primária no tempo em que se trabalhava não de sol a sol, mas do romper do sol até à meia- noite. As pessoas eram para trabalhar e o dinheiro (aqueles que o tinham...) era para se guardar. Então, e a educação dos filhos?

Não quero dizer que os pais não se preocupavam em educar os filhos. De modo algum! A boa educação era tarefa comum.

Eu que tenho passado a vida a aprender e a ensinar, hoje interrogo-me muitas vezes sobre os métodos e técnicas de ensino/aprendizagem. Nós hoje queixamo-nos muitas vezes que as turmas são demasiado grandes (cerca de 30 alunos). E é verdade. Mas, o que se pode dizer de uma professora que quando começou a ensinar (estávamos em 1937) tinha 110 alunos (não é engano, eram mesmo cento e dez!...) das quatro classes?! E, pela nossa experiência pessoal, o que é certo é que havia sucesso. Os métodos eram outros é certo. Mas, quem dava um erro ortográfico na 4ªclasse? Se a caneta - aquela de molhar no tinteiro - eventualmente não era bem conduzida para escrever correctamente as palavras e fazer acertadamente as contas, as mãos é que pagavam (E verdade seja dita, 'canas da índia' e meninas de quatro olhos' eram coisas que nunca faltavam como complemento educativo...).

Os métodos são outros, é certo. Mas, hoje, eu que passo grande parte da minha vida a corrigir testes e trabalhos dos alunos - só tenho alunos a partir do 10º/11º anos - e raramente se encontra um trabalho que não tenha erros ortográficos. (E, ás vezes, são tantos e cada um!...)

Todos nós sabíamos a tabuada de cor e salteada ( hoje, se as máquinas de calcular falham, já não se sabe quanto dá a conta...) Tanto assim era que, ainda hoje, entre nós, quando algum erra uma conta ou não sabe onde fica determinado rio, serra ou caminho de ferro, logo se ouve a expressão: "bem se vê que não andaste na Palmira!"

Qual era o horário de trabalho da nossa professora? Entrávamos às 9,00, íamos almoçar às 13,00, entrávamos às 14,00 e depois, à hora de sair, íamos lanchar (habitualmente era a esta hora que almoçávamos a sopa que ficava morninha na panela de ferro. ..pois à hora de almoço, como ainda não estava feito, comia-se qualquer coisa...) e voltávamos - sobretudo e obrigatoriamente os da 4ª classe - para continuarmos até ao anoitecer.

No entanto, nem sempre cumpríamos este horário tão rigorosamente. Às vezes, no tempo mais quente, antes de ir merendar/almoçar (e quantas vezes em vez de ir merendar/almoçar) íamos aos "cantos" - lago de água que havia por detrás da cabine da luz - nadar um pouco (Na gíria, dar um nado...). Só que, quando a demora era muita, a senhora ia à nossa procura. Algumas vezes aconteceu que se lembrava de trazer a roupa, que estava abandonada, pois quando a descortinávamos ao longe, logo nos refugiávamos em lugar mais recatado. Quando nos demorávamos mais do que o tempo considerado normal, já tínhamos uma garrafa de azeite bem guardada, para untar as mãos antes de entrar na Escola... a régua ao bater já não aleijava tanto...

E, qual a recompensa de todas estas horas de trabalho? Certamente que a melhor recompensa eram os resultados dos seus alunos. Os tempos eram outros verdadeiramente! Outros valores, para além dos meramente económicos nos orientavam...

E ao Sábado, lá íamos nós cantando e rindo... As tarefas eram mais leves e habitualmente só até ao meio dia. Havia as aulas de canto coral (Quando andava na 3ª classe tivemos que aprender o Hino Nacional para cantar aquando da visita do Governador Civil, para a inauguração da luz eléctrica) e varriam-se os pátios e a escola. Curiosamente, bastava varrer a escola uma vez por semana. Chegava! Mas como, se havia constantemente tanta gente a entrar e sair da sala? É que os tamancos e as chancas - espécie de sapatos com a sola em madeira ficavam em fila indiana, à porta da sala, à espera que o dono saísse lá de dentro, pois não tinham ordens para entrar...

De facto, aturar quarenta e tal "manfios", em casa, de manhã à noite, não era de passar frio... A algazarra era constante!

Os seus alunos, num gesto de gratidão, prestaram-lhe urna simples mas sentida homenagem em 23 de Agosto de 1987, para lhe dizer simplesmente "OBRIGADO Senhora Dona Palmira!" Nesse dia passou um certificado de presença a todos os presentes e à comissão organizadora ofereceu uma lapiseira com o nome gravado - que ainda hoje guardo.

Felizmente que o Senhor a vai conservando entre nós. Ainda suficientemente lúcida para nos facultar estas notas que apresentamos na biografia e, de vez em quando, nos dar uma "lambadita". Oxalá que por muito tempo e de boa saúde.

OBRIGADO DONA PALMIRA!

Coimbra, 28 de Abril de 2001

Fernando Manuel D. Azeiteiro(Aluno de 1959 a 1963)

 

 
       
       
       
       
     

 

Lentisqueira - Concelho de Mira - Distrito de Coimbra

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