Da Praia passou para
o S. Caetano, onde esteve durante três anos (foi professora
do Padre Manuel de Jesus, entre muitos outros...). Aqui nasceu
a sua segunda filha. Aí residia durante a semana, vindo apenas
aos fins de semana para a Lentisqueira.
Foi a partir desta altura
que a ti Maria ( a criada, como no tempo se dizia)
começou a fazer parte da família, onde permaneceu fielmente
até à morte.
Começou a leccionar
na Lentisqueira em 1949. Os
seus primeiros alunos foram o Adélio Manco (aliás, curiosamente,
o Adélio foi dos primeiros alunos e o filho do Adélio, o Luís,
foi o último aluno.), o Neco Manco, o Maximino... Tinha, então,
cerca de 50 alunos nas quatro classes, sendo a Escola em casa
do ti Miguel. Recorde-se que todos os alunos do Colmeal e das
Cavadas vinham à escola à Lentisqueira.
Como havia apenas uma
sala no edifício escolar oficial, arranjou uma sala em sua
casa, onde deu aulas praticamente até entrar na reforma.A
sua casa era a casa de todos os seus alunos. O pátio da sua
casa era o nosso recreio...
Além dos alunos regulares,
normalmente entre 40 e 50, quase todos os anos tinha
alunos de preparação para a Admissão, exame que todos os que
queriam prosseguir estudos após a 4ª classe, tinham de fazer
para entrar no ensino oficial.
Depois da revolução de
25 de Abril de 74, começou a haver turmas mistas (rapazes /
raparigas), começando a haver desdobramento (uns tinham aulas
de manhã, outros tinham aulas à tarde), dando os professores
aulas ou de manhã ou de tarde. Começou então, a dar escola às
meninas. As suas primeiras alunas foram a Paula Manco, a Dores
Nuno Rico, a Cristina Cruz e o Rui Alegrio, que acabaram a 4ª
classe em 1980.
Foi professora de um
filho, de um genro e de um neto...Aposentou-se
em 1980 com uma reforma de cerca de 80 contos.
Com um curiculum destes,
bem merece a reforma regalada que os filhos e genros lhe têm
proporcionado e o carinho e gratidão de todos os seus ex-alunos...
A minha
professora
Tal como uma velha árvore
conserva todos os testemunhos do seu crescimento e da sua vida,
assim também acontece com cada um de nós. Somos aquilo que fazemos
e fizemos. Somos justos quando praticamos a justiça e somos
honestos quando as nossas acções o são. Também aqui 'pelo fruto
se conhece a árvore'.
Pediram-me que deixasse
o meu testemunho público de quem foi / é a minha - nossa -professora
primária. É sempre com emoção e gratidão que falamos da nossa
professora, pois a professora primária (hoje, do 1º ciclo) é
como que uma segunda Mãe. Se a nossa mãe nos ensinou as primeiras
palavras, a nossa professora ensinou-nos as primeiras letras,
ou seja, ajudou-nos a interpretar e a perceber essas primeiras
palavras. E, além disso, ensinou-nos outra coisa muito importante:
é que não falamos apenas com as palavras. Falamos também pelas
nossas atitudes e comportamentos. É que, quando íamos para a
Escola - e falo da minha experiência pessoal - não íamos só
para aprender a ler e a escrever. A professora não se preocupava
apenas em ensinar-nos os programas, o que vinha nos livros,
as contas de somar e dividir, a História e a Geografia, mas
- e felizmente sobretudo - a sermos meninos bem educados e respeitadores
que aprendiam Matemática e outras coisas bonitas. Não bastava
saber a tabuada de cor e salteada e não dar nenhum erro no ditado,
era igualmente necessário saber comportar-se com os colegas
(ai daquele que se atrevesse a dizer uma asneira e que chegasse
aos ouvidos da Senhora...) e com as restantes pessoas (ninguém
se atrevia a tratar uma pessoa mais velha por tu... e os pais,
então, nem pensar!...)
Hoje diríamos que a professora
não se preocupava em instruir, mas antes em EDUCAR. As atitudes
e os valores estavam sempre presentes. Assim, podemos dizer
que foi uma grande sorte a professora que tivemos. Não só pelo
muito que nos ensinou, mas sobretudo pela formação pessoal e
humana que nos proporcionou.
Eu andei na Escola primária
no tempo em que se trabalhava não de sol a sol, mas do romper
do sol até à meia- noite. As pessoas eram para trabalhar e o
dinheiro (aqueles que o tinham...) era para se guardar. Então,
e a educação dos filhos?
Não quero dizer que os
pais não se preocupavam em educar os filhos. De modo algum!
A boa educação era tarefa comum.
Eu que tenho passado
a vida a aprender e a ensinar, hoje interrogo-me muitas vezes
sobre os métodos e técnicas de ensino/aprendizagem. Nós hoje
queixamo-nos muitas vezes que as turmas são demasiado grandes
(cerca de 30 alunos). E é verdade. Mas, o que se pode dizer
de uma professora que quando começou a ensinar (estávamos em
1937) tinha 110 alunos (não é engano, eram mesmo cento e dez!...)
das quatro classes?! E, pela nossa experiência pessoal, o que
é certo é que havia sucesso. Os métodos eram outros é certo.
Mas, quem dava um erro ortográfico na 4ªclasse? Se a caneta
- aquela de molhar no tinteiro - eventualmente não era bem conduzida
para escrever correctamente as palavras e fazer acertadamente
as contas, as mãos é que pagavam (E verdade seja dita, 'canas
da índia' e meninas de quatro olhos' eram coisas que nunca faltavam
como complemento educativo...).
Os métodos são outros,
é certo. Mas, hoje, eu que passo grande parte da minha vida
a corrigir testes e trabalhos dos alunos - só tenho alunos a
partir do 10º/11º anos - e raramente se encontra um trabalho
que não tenha erros ortográficos. (E, ás vezes, são tantos e
cada um!...)
Todos nós sabíamos a
tabuada de cor e salteada ( hoje, se as máquinas de calcular
falham, já não se sabe quanto dá a conta...) Tanto assim era
que, ainda hoje, entre nós, quando algum erra uma conta ou não
sabe onde fica determinado rio, serra ou caminho de ferro, logo
se ouve a expressão: "bem se vê que não andaste na Palmira!"
Qual era o horário de
trabalho da nossa professora? Entrávamos às 9,00, íamos almoçar
às 13,00, entrávamos às 14,00 e depois, à hora de sair, íamos
lanchar (habitualmente era a esta hora que almoçávamos a sopa
que ficava morninha na panela de ferro. ..pois à hora de almoço,
como ainda não estava feito, comia-se qualquer coisa...) e voltávamos
- sobretudo e obrigatoriamente os da 4ª classe - para continuarmos
até ao anoitecer.
No entanto, nem sempre
cumpríamos este horário tão rigorosamente. Às vezes, no tempo
mais quente, antes de ir merendar/almoçar (e quantas vezes em
vez de ir merendar/almoçar) íamos aos "cantos"
- lago de água que havia por detrás da cabine da luz - nadar
um pouco (Na gíria, dar um nado...). Só que, quando a
demora era muita, a senhora ia à nossa procura. Algumas vezes
aconteceu que se lembrava de trazer a roupa, que estava abandonada,
pois quando a descortinávamos ao longe, logo nos refugiávamos
em lugar mais recatado. Quando nos demorávamos mais do que o
tempo considerado normal, já tínhamos uma garrafa de azeite
bem guardada, para untar as mãos antes de entrar na Escola...
a régua ao bater já não aleijava tanto...
E, qual a recompensa
de todas estas horas de trabalho? Certamente que a melhor recompensa
eram os resultados dos seus alunos. Os tempos eram outros verdadeiramente!
Outros valores, para além dos meramente económicos nos orientavam...
E ao Sábado, lá íamos
nós cantando e rindo... As tarefas eram mais leves e habitualmente
só até ao meio dia. Havia as aulas de canto coral (Quando andava
na 3ª classe tivemos que aprender o Hino Nacional para cantar
aquando da visita do Governador Civil, para a inauguração da
luz eléctrica) e varriam-se os pátios e a escola. Curiosamente,
bastava varrer a escola uma vez por semana. Chegava! Mas como,
se havia constantemente tanta gente a entrar e sair da sala?
É que os tamancos e as chancas - espécie de sapatos com a sola
em madeira ficavam em fila indiana, à porta da sala, à espera
que o dono saísse lá de dentro, pois não tinham ordens para
entrar...
De facto, aturar quarenta
e tal "manfios", em casa, de manhã à noite, não era
de passar frio... A algazarra era constante!
Os seus alunos, num gesto
de gratidão, prestaram-lhe urna simples mas sentida homenagem
em 23 de Agosto de 1987, para lhe dizer simplesmente "OBRIGADO
Senhora Dona Palmira!" Nesse dia passou um certificado
de presença a todos os presentes e à comissão organizadora ofereceu
uma lapiseira com o nome gravado - que ainda hoje guardo.
Felizmente que o Senhor
a vai conservando entre nós. Ainda suficientemente lúcida para
nos facultar estas notas que apresentamos na biografia e, de
vez em quando, nos dar uma "lambadita". Oxalá
que por muito tempo e de boa saúde.
OBRIGADO DONA PALMIRA!
Coimbra, 28 de Abril
de 2001
Fernando Manuel
D. Azeiteiro(Aluno
de 1959 a 1963)
